Projeto acadêmico & social

Inteligência artificial para educação e diversidade religiosa

O Chatbot Nanã é uma inteligência artificial educativa desenvolvida no âmbito da Iniciação Científica da PUC-Campinas. Resultado de pesquisas do Grupo de Pesquisa Solaris, o projeto reúne tecnologia, produção científica e memória afro-brasileira para ampliar o acesso ao conhecimento sobre as religiões de matriz africana, promover o letramento racial e contribuir para o enfrentamento do racismo religioso, com foco na história e no patrimônio cultural de Campinas.

Ilustração de Nanã, a avó sábia que conduz o chatbot
Sobre o projeto

Quem é Nanã?

A Nana Buruquê nasceu dentro do Grupo de Pesquisa Solaris, da PUC-Campinas, a partir de um projeto de Iniciação Científica orientado pelo Prof. Tarcísio Torres Silva. A motivação é direta: o racismo religioso contra terreiros de Candomblé, Umbanda e outras tradições de matriz africana segue presente no Brasil, e faltam ferramentas digitais que tratem o tema com profundidade — especialmente com recorte local. A chatbot Nanã existe para servir estudantes, educadores, comunidades de terreiro e qualquer pessoa interessada em aprender sobre essas religiões com respeito e rigor histórico, tendo Campinas como território de referência.

Metodologicamente, o projeto parte de revisão bibliográfica e consultoria de especialistas — como o Centro de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros da PUC-Campinas — para alimentar um banco de dados que une o racismo estrutural (base teórica), a diáspora africana (origem das tradições) e a história local de Campinas (seu período escravocrata e os patrimônios afro-campineiros ainda pouco conhecidos).

02
Pesquisadores envolvidos
32
Meses de desenvolvimento (jan/2025 – ago/2027)
00
Fontes históricas revisadas
Nanã
Tab 1 · nanã chatbot

Pergunta sem medo, meu bem

Como conversar com a Nanã

Este chatbot é experimental e funciona com inteligência artificial: assim como qualquer IA, pode cometer erros, gerar respostas imprecisas ou incompletas. Sempre valide as informações recebidas em fontes confiáveis antes de utilizá-las academicamente ou compartilhá-las.
Nanã
Tab 2

Pesquisa & Desenvolvimento

Esta seção reúne os dois projetos de Iniciação Científica que sustentam a Nana Buruquê: "Inteligência artificial para a promoção de diversidade racial e combate à intolerância religiosa na cidade de Campinas" (iniciado em janeiro de 2025) e sua continuidade, "Chatbots como ferramentas de letramento racial" (com início em setembro de 2026), conduzidos por Aline dos Santos Alves de Assis sob orientação do Prof. Tarcísio Torres Silva, no Grupo de Pesquisa Solaris (PUC-Campinas).

Fundamentação teórica

O projeto parte do entendimento do racismo religioso como desdobramento do racismo estrutural (Tarcízio Silva, 2021; 2022) e do debate sobre colonialismo digital — o "novo colonialismo dataficado" descrito por Sérgio Silveira (2021) e a atualização de antigas formas de dominação por meio de dados, conforme Faustino e Lippold (2023).

A base sobre religiões de matriz africana apoia-se em Reginaldo Prandi (2000; 2001) e, para a Jurema Sagrada, em L'Odò (2017). Some-se a literatura sobre IA para o bem social e vieses algorítmicos (Chui et al., 2018; Cachat-Rosset & Klarsfeld, 2023; Roshanaei, 2024; Sichman, 2021), que reforça a premissa central: tecnologias não são neutras.

Metodologia de desenvolvimento

Etapa 1 — revisão bibliográfica sobre religiões de matriz africana e sobre a história afro-campineira; construção de um banco de dados em duas camadas (religiões → memória e história local); consultoria do Centro de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros e parceria com a Faculdade de Sistemas da Informação (PUC-Campinas). Protótipo conceitual original: front-end em ReactJS, motor conversacional em LLaMA 3 (via Groq API), banco vetorial Milvus, arquitetura RAG.

Etapa 2 — testes práticos comparando esse protótipo ao Gemini Gems; diante de limitações institucionais para hospedagem em nuvem própria, a pesquisa passou por uma reformulação técnica.

Etapa 3 (nova) — um imprevisto no desenvolvimento levou a equipe a não seguir com o código original do protótipo. A ferramenta em funcionamento hoje foi reconstruída com apoio do Claude (Anthropic), com o código hospedado e indexado no GitHub — de onde também é servido o protótipo desta página — usando Supabase como banco de dados/backend e Vercel para hospedagem e deploy contínuo da aplicação.

Curadoria de conteúdo

O banco de dados é organizado por tradição religiosa — Candomblé (nações Ketu, Jeje, Angola, Congo, Ijexá e Efã), Umbanda, Quimbanda, Jurema Sagrada/Catimbó e Vodu Haitiano — documentando cosmovisão, terminologias, práticas rituais e presença regional de cada uma.

Para o recorte campineiro, a curadoria se apoia no levantamento "Territórios Negros: nossos passos vêm de longe!" (CALIXTO, 2024), mapeando marcos como a Igreja e o Largo São Benedito, o Cemitério da Saudade, a Igreja do Rosário e o Cemitério dos Homens Pretos, a ARMAC, casas de cultura e escolas de samba locais — validados com consultoria da comendadora Edna Almeida Lourenço e da coordenadora Waleska Miguel Batista.

O material de campo também inclui a HQ Territórios Negros (2ª edição), publicação em quadrinhos organizada por Guida Calixto, disponibilizada no acervo digital Baobáxia — repositório comunitário livre mantido pela Casa de Cultura Tainã, pensado para socializar saberes e memórias ancestrais entre comunidades quilombolas, indígenas e urbanas. Acessar a HQ.

Avaliação & ética

Ancorada na crítica ao racismo algorítmico (Silva, 2022) e ao colonialismo digital (Silveira, 2021; Faustino & Lippold, 2023), a avaliação parte do princípio de que nenhuma IA tem consciência neutra — os vieses de quem a constrói se refletem em suas respostas.

As respostas do chatbot são checadas por comparação com as fontes validadas na revisão bibliográfica e em entrevistas, com testes voltados à detecção de alucinações. Motores diferentes (protótipo próprio em RAG e Gemini Gems) são comparados quanto a controle, personalização e mitigação de vieses racistas, com validação prevista em escolas, centros culturais e, experimentalmente, junto a comunidades de religiões de matriz africana.

Marcos do projeto

Jan 2025 – Ago 2026 · IC I

Fundamentação e protótipo

Revisão bibliográfica sobre religiões de matriz africana e sobre Campinas; construção do banco de dados; desenvolvimento do protótipo front-end (ReactJS) e do motor conversacional (LLaMA 3 + Milvus + RAG).

Set 2026 – Fev 2027 · IC II

Testes multiplataforma

Testes de alucinação e comparação entre o protótipo próprio e o Gemini Gems; adaptação metodológica para ferramentas de automação diante de limitações de hospedagem própria em nuvem.

Mar – Ago 2027 · IC II

Reformulação técnica e aplicação com públicos

Diante de um imprevisto com o código original, a ferramenta foi reconstruída com apoio do Claude, hospedada e indexada no GitHub, com Supabase como backend e deploy contínuo via Vercel; aplicação experimental em escolas, centros culturais e comunidades de terreiro; redação do relatório final e artigo para publicação.

Publicações e comunicações

Resumos expandidos

Inteligência artificial e colonialismo digital: reflexões a partir do desenvolvimento do Chatbot Nanã.
Aline dos Santos Alves de Assis, Tarcisio Torres Silva. 29º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste — Intercom, UniFOA, Volta Redonda/RJ, 14 a 16 de maio de 2026.
Acessar o trabalho completo (PDF)

Inteligência artificial no enfrentamento do racismo religioso: chatbot sobre afro-religiosidades em Campinas.
Aline dos Santos Alves de Assis, Tarcisio Torres Silva. Resumo expandido — Eixo Temático 2, XVIII Simpósio Nacional da ABCiber, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo/SP, 11 a 13 de novembro de 2025.
Acessar o resumo expandido (PDF)

Certificados de comunicações

29º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste — Intercom Sudeste 2026.
Certificado de apresentação como Expositor(a) no GT08SE Comunicação, educação e desenvolvimento, UniFOA, Volta Redonda/RJ, 14 a 16 de maio de 2026.
Ver certificado (PDF)

XVIII Simpósio Nacional da ABCiber 2025.
Certificado de apresentação de trabalho, Faculdade Cásper Líbero, São Paulo/SP, 11 a 13 de novembro de 2025 (20 horas).
Ver certificado (PDF)

Tab 3

Equipe de Pesquisa

Este projeto é um braço da pesquisa mais ampla do Prof. Tarcísio Torres Silva sobre inteligência artificial e diversidade. Para conhecer o projeto completo, acesse tartorres.wixsite.com/iaparaobem.

Ilustração de Nanã
Foto de Tarcísio Torres Silva

Tarcísio Torres Silva

Orientador

Professor pesquisador em dedicação integral na PUC-Campinas. Líder do grupo de pesquisa Sociedade Mediatizada: processos, tecnologia e linguagem. Doutor em Artes Visuais pela Unicamp (2013), com estágio doutoral no Goldsmiths College (Universidade de Londres) e pós-doutorado no Labô/PUC-SP (2023–2024). Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Linguagens, Mídia e Arte da PUC-Campinas (2018–2022) e foi professor visitante do Instituto Politécnico de Bragança, Portugal (2022). Autor de "Ativismo digital e imagem: estratégias de engajamento e mobilização em rede" (auxílio FAPESP) e coorganizador da coleção "Redes Digitais e Culturas Ativistas" (2022). Coordena o Grupo de Estudos Raça, Cultura e Decolonalidade na PUC-Campinas (2024–atual) e participa, em 2025, da Cátedra Oscar Sala (IEA-USP) sobre agentes de inteligência artificial. Suas pesquisas atuais giram em torno das relações de poder em mídias digitais, com foco em diversidade, equidade e inclusão, implicações sociais da IA e mídia e relações raciais.

Foto de Aline dos Santos Alves de Assis

Aline dos Santos Alves de Assis

Pesquisadora · Bolsista de Iniciação Científica

Bacharel em Ciências Sociais e graduanda em Jornalismo pela PUC-Campinas. Atua como pesquisadora de Iniciação Científica (Bolsista Reitoria) no Grupo de Pesquisa Solaris, onde desenvolve este projeto interdisciplinar sobre inteligência artificial, diversidade racial e combate à intolerância religiosa. Possui trajetória acadêmica voltada às Ciências da Religião e à Antropologia, com ênfase em religiões afro-brasileiras, cultura popular e processos migratórios.

Apoio institucional e colaboração

O projeto conta com a consultoria do Centro de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros da PUC-Campinas, por meio da comendadora Edna Almeida Lourenço e da coordenadora Waleska Miguel Batista, além do apoio técnico do professor pesquisador Saullo Oliveira e do curso de Sistemas da Informação da universidade no desenvolvimento do protótipo conversacional.

A identidade visual e o design da interface — incluindo a persona "Nanã Dara" — foram desenvolvidos por uma equipe de alunos da Faculdade de Publicidade e Propaganda: Giulia Sallum, Mariana Oliveira, Ana Paula Lopes, Elizeu Christian Magalhães, Gabriela Antonio D'Alessio e Victor Henrique de Almeida.

Tab 4

Contexto & História

Compreender o racismo religioso exige olhar para três camadas que se sobrepõem: a estrutura social que sustenta o racismo no Brasil, a história da diáspora africana que formou as religiões de matriz africana, e a memória local de Campinas — cidade cuja riqueza foi construída sobre a mão de obra escravizada e cujo apagamento cultural o projeto busca reverter.

Ilustração ancestral de Nanã
01
Conceitos fundamentais

Racismo Estrutural

Para Silvio Almeida (2019), o racismo não é um desvio de caráter individual, mas um elemento estruturante da própria organização política, econômica e jurídica da sociedade — sua "manifestação normal", e não uma anomalia. É essa estrutura que sustenta o racismo religioso: a perseguição a terreiros, a criminalização de práticas de matriz africana e o apagamento de saberes ancestrais no currículo escolar e no debate público.
O racismo não precisa de racistas conscientes para se reproduzir — basta que as instituições continuem funcionando como sempre funcionaram.
Essa mesma estrutura se estende às tecnologias digitais. Tarcízio Silva (2022) descreve o "racismo algorítmico" como a reprodução desses padrões discriminatórios em sistemas de IA, enquanto Sérgio Silveira (2021) fala de um "novo colonialismo dataficado" e Deivison Faustino e Wallace Lippold (2023) propõem o conceito de colonialismo digital para nomear como antigas formas de dominação se atualizam através de dados. É esse diagnóstico que justifica construir, deliberadamente, uma ferramenta de IA com curadoria histórica e escuta comunitária.
  • ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro/Pólen, 2019.
  • SILVA, Tarcízio. Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2022.
  • FAUSTINO, Deivison; LIPPOLD, Wallace. Colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana. São Paulo: Boitempo, 2023.
02
Memória & formação social

Diáspora Africana & História no Brasil

A diáspora africana no Brasil não foi um deslocamento único, mas o resultado forçado de séculos de tráfico transatlântico que trouxe povos de diferentes línguas, cosmovisões e nações — iorubás, bantos, fon, entre tantos outros. Kabengele Munanga (2009) descreve como essas origens plurais, e não uma "África" homogênea, formaram as bases culturais, linguísticas e religiosas do Brasil contemporâneo.
Não existe uma única raiz africana no Brasil, mas uma trama de origens que a mestiçagem oficial tentou, por muito tempo, simplificar ou apagar.
Apesar da violência da escravização, essa diáspora produziu resistência e permanência: quilombos, irmandades religiosas negras — como a que ergueu a Igreja do Rosário dos Homens Pretos, citada na história de Campinas — e a preservação, através da oralidade, das religiões de matriz africana que hoje o chatbot busca explicar com rigor histórico, como registram Reginaldo Prandi (2000) e o Dicionário da escravidão e liberdade, organizado por Lilia Schwarcz e Flávio dos Santos Gomes (2018).
  • MUNANGA, Kabengele. Origens africanas do Brasil contemporâneo: histórias, línguas, culturas e civilizações. São Paulo: Global, 2009.
  • MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
  • SCHWARCZ, Lilia M.; GOMES, Flávio dos Santos (org.). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
  • PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
03
Memória local

A História de Campinas

A riqueza de Campinas foi construída sobre a mão de obra escravizada. O historiador José Roberto do Amaral Lapa (1996) documenta como a expansão da lavoura cafeeira, entre 1850 e 1900, transformou o município em um dos maiores núcleos escravistas do interior paulista — chegando a concentrar, ao fim do período, mais pessoas escravizadas do que qualquer outra cidade da província, segundo levantamentos históricos da economia cafeeira regional (EISENBERG, 1989; MARTINS, s.d.).
A opulência da Campinas cafeeira do século XIX teve como contrapartida direta o cativeiro urbano e rural de milhares de pessoas negras.
Esse passado deixou marcas físicas e simbólicas que o projeto busca resgatar: o Largo e a Igreja de São Benedito, erguida por Mestre Tito, um ex-escravizado; o Cemitério dos Homens Pretos, ligado à Igreja do Rosário; o Cemitério da Saudade; e organizações vivas como a ARMAC (Associação dos Religiosos de Matriz Africana de Campinas e Região). O levantamento "Territórios Negros: nossos passos vêm de longe!", organizado pela vereadora Guida Calixto (2024), foi a principal referência para mapear esses patrimônios — detalhados na aba de Pesquisa & Desenvolvimento.
  • LAPA, José Roberto do Amaral. A cidade: os cantos e os antros — Campinas 1850-1900. São Paulo: Edusp, 1996.
  • EISENBERG, Peter L. Homens esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil — séculos XVIII e XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 1989.
  • MARTINS, Valter. Riqueza e mobilidade social na economia cafeeira: Campinas, 1870-1940. Ponta Grossa: UEPG.
  • CALIXTO, Guida (org.). Territórios negros: nossos passos vêm de longe! 2. ed. Campinas: Ed. da Autora, 2024.